O hip-hop descolado | Parabéns Aurora

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“Do vidro da janela do quarto do Lucas*, na UTI do Hospital São Luiz, já era possível vê-lo com o dedo levantado, balançando de um lado pro outro, negando a entrada dos palhaços. Por outro lado, seus pais muito animados, abriram a porta e pediam que entrassem.

- Ixi, a gente tá achando que o Lucas não quer nóis aqui, não! – falou Joaquim.

- Bom, tudo bem, só viemos dar um ‘oi’ mesmo! – conclui Marcelina.

- Verdade, Lucas! – foi a vez de Aurora – Foi bom esse momento que ‘passamo junto’ aí, é nóis!

Todos olharam para a cara da palhaça de cabelos desgrenhados espantados: que tipo de vocabulário era aquele?

- Nossa, Aurora. O que foi isso? A gente vem aqui, na maior classe, e você dá uma dessas? – Marcelina, brava, iniciou as reclamações.

- Tem razão! Que feio, Aurora! – ajudou Joaquim.

Lucas, naquele momento, olhava atentamente para os três patetas discutindo em sua porta e, agora, sem fazer negativas. Depois de muito ouvir, Aurora decidiu tentar novamente. Pediu licença, se afastou da porta e, com a maior classe que conseguia, se aproximou novamente dizendo:

- Oi Lucas, eu sou a Aurora!

- Minha nossa senhora! Que postura é essa?

- E que mãos estranhas!

A palhaça revirou os olhos, já sem paciência, pediu licença novamente e retomou a tentativa. Com a postura reta e mãos fechadas, caminhou até o limite do batente da porta.

- Pelo amor de Deus, essas mãos fechadas estão horríveis. E não vai botar um sorriso no rosto, mulher!

Naquela altura, Aurora não aguentava mais tantas reclamações. Bateu o pé no chão, respirou fundo, refez todo seu caminho e, ao chegar na porta, falou entredentes:

- Oi Lucas, eu sou a Aurora, foi um prazer te co…

- Que? Não dá pra entender nada do que você está falando! Parece que tá com raiva!

Enfurecida, a palhaça injustiçada resolveu desafiar os parceiros e pediu para que eles se apresentassem para o paciente, já que era tão bons. E não é que foram bons mesmo? Um de cada vez, Joaquim e Marcelina, graciosamente e da forma mais simpática que existe, se afastaram da porta, se preparam, voltaram para onde estavam e entonaram uma linda saudação.

Aurora não podia estar mais brava.

Com uma cara feia, disse que tentaria agora do jeito dela e não ouviu mais nenhum conselhos dos colegas. Quem decidiria a melhor entrada seria Pedro, já que era imparcial. O paciente concordou e lá foi ela, toda animada. Se afastou e, ao andar de volta, fez uma batida de hip-hop no pandeiro, cantando o seguinte verso:

‘Eai, Lucas, como é que você tá?

Eu sou Aurora e vim aqui me apresentá

Mas fica tranquilo que eu vou ficar aqui fora

Da linha da porta eu não vou ultrapassá’

A gargalhada foi imediata e nem os palhaço se seguraram. Aurora tinha feito uma voz tão idiota e movimentos incrivelmente lontras com as mãos, que até o Lucas, que não queria conversa, caiu na gargalhada.

Joaquim e Marcelina até se emocionaram com tamanha destreza. Elogiaram a amiga e, ao perguntarem para Lucas qual havia sido a melhor apresentação, o paciente concluiu:

- Os três!

Escolha justíssima. Com jeitos diferentes, dois graciosos e uma com movimentos adquiridos sei lá de onde, os palhaços conquistaram o Lucas, sem nem entrarem no quarto dele.

Se despediram e Aurora até aproveitou para fazer uma rima de tchau, no maior estilo hip-hop. “


História contada por: Patrícia Mazzei (Aurora);

Vivenciada por: Aurora, Joaquim e Marcelina

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*nome fictício

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